Reconhecer e admitir nossa sombra não é tarefa fácil ou confortável. Mas devemos encarar o fato de que somos seres duais, ambivalentes, carregamos o bem e o mal dentro de nós. Não somos feitos só de luz, até porque onde há luz, inevitavelmente há sombra. Mesmo nas coisas mais luminosas há sombra, mesmo nas coisas mais horrendas há luz.
“Precisamos muito mais de uma ampliação da nossa consciência reflexiva, para que possamos ter uma percepção mais clara das forças em oposição que há dentro de nós e para que deixemos de tentar afastar o mal do caminho, ou de negá-lo ou projetá-lo, o que temos feito até agora. Em palavras ainda mais simples, isso significa que devemos de fato ver a nossa sombra, em vez de vivê-la inconscientemente na prática.” (FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025)
As duas partes da personalidade, o ego (o centro da consciência) e o centro do inconsciente (o Self), parecem possuir uma estrutura semelhante a imagem especular, espelhada. Ambas contêm luz e trevas porque, embora o nosso ego familiar nos pareça lúcido, conhecido e claro, há nele as mais misteriosas trevas e, embora o inconsciente se afigure uma grande sombra, há nele uma luz inesperada, na medida em que produz, entre outras coisas, inspirações “iluminadoras”.
(FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025)
A sombra não é o lado negativo da luz, é apenas algo em que não há luz sobre.
“…a luz só tem sentido quando ilumina alguma coisa escura e a iluminação não é boa se não o ajudar a reconhecer a própria escuridão.”
(FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025)
“O próprio homem é incapaz de dominar a misteriosa polaridade que há em sua própria natureza; ele deve, em vez disso, aprender a compreendê-la como um conteúdo psíquico objetivo inerente…”(FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025)
O Bem em nós e o Mal projetado no “outro”
“É como se o homem tivesse um direito inalienável de contemplar tudo o que é sombrio, imperfeito, estúpido e culposo em seus semelhantes - porque essas são, na verdade, as coisas que mantemos em segredo, a fim de nos proteger (...)”
“Como se crê universalmente que o homem é apenas aquilo que a sua consciência sabe de si mesma, ele se considera inofensivo e, desse modo, soma estupidez a iniquidade. Ele não nega que coisas terríveis aconteceram e continuam a acontecer, mas são sempre “os outros” que as produzem (...). Nenhum de nós está livre da tenebrosa sombra coletiva da humanidade.”
Se projetamos o mal nos outros, perdemos a possibilidade de perceber e, com ela, a capacidade de lidar com o mal.
(FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025.)
Nosso habitual desprezo pela questão do mal nos deixa em má situação, pois estamos à mercê de sermos governados por desejos-fantasias infantis e por afetos e ressentimentos pessoais, tanto no âmbito coletivo quanto pessoal, a não ser que tenhamos consciência dessas coisas em nossas próprias sombras.
“Isso constitui um passo no caminho para o próximo alvo: a descoberta do oponente dentro de nós mesmos, no insaciável impulso de poder de nossa própria sombra. Os instintos agressivos do homem não podem simplesmente ser desligados - deve-se, por assim dizer, considerar a natureza humana tal como ela é… Seria ainda melhor se pudéssemos reconhecer que nosso pior inimigo vive em nosso próprio coração.”
(FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025.)
Nada é absolutamente bom ou absolutamente mau
É importante abandonarmos a ilusão de que sabemos com certeza o que são o bem e o mal e de que podemos transmitir a outros esse conhecimento, porque, com essa convicção, sucumbimos. “Toda espécie de vício é má, seja o narcótico, o álcool, a morfina ou o idealismo. Temos de nos acautelar para não pensarmos o bem e o mal como opostos absolutos.”
Quando os opostos são conscientemente reconhecidos, o bem e o mal são, por isso mesmo, relativizados. Isso, contudo, de modo algum implica que essas categorias tenham perdido sua validade.
(FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025.)
Os chineses tinham outro modo de encarar isso, não tanto pela separação de bom e mau, no sentido moral, ou de boa sorte e má sorte, mas examinando como isso se ajustava à sua grande ordem mundial de Yang e Yin - os princípios masculino e feminino, o ativo e o passivo, a luz e as trevas etc. - e assumindo a atitude mais sábia, segundo a qual nada é absolutamente bom ou absolutamente mau. Assim , seria mais importante, ao impor uma ordem binária a essas ordens caóticas, não fazê-la boa ou má - Sim ou Não -, mas considerá-la como tal e tal tipo de situação, á qual se ajusta este ou aquele tipo de atitude. Yin e Yang não são bons nem maus. Na china, tanto um como o outro podem ser bons ou maus - essa é outra categoria - mas quando a situação Yin prevalece, a pessoa deve se comportar de maneira Yin; e quando a situação Yang predomina, ela deve conduzir-se de um modo que se ajuste a essa situação.
Os chineses eram suficientemente desprendidos e filosóficos para dizer que, mesmo se alguma coisa é má para mim, ela poderá ser boa como um todo. Desde o começo, eles tiveram uma concepção mais sábia ou mais objetiva acerca do que chamamos de bom e mau, e viram-no mais como algo no conjunto da existência.
(FRANZ, Marie-Louise Von. Adivinhação e Sincronicidade. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.)
Referências:
FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025.
FRANZ, Marie-Louise Von. Alquimia e a imaginação ativa. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.
FRANZ, Marie-Louise Von. Adivinhação e Sincronicidade. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.