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Função Transcendente: A união dos conteúdos conscientes e inconscientes

Por função transcendente não se deve entender algo de misterioso, suprassensível ou metafísico, mas uma função que, por sua natureza, pode-se comparar com uma função matemática de números reais e imaginários. A função psicológica e “transcendente” resulta da união dos conteúdos conscientes e inconscientes.

 

A experiência da psicologia analítica mostra que o consciente e o inconsciente raramente estão de acordo no que se refere a seus conteúdos e tendências. Esta falta de paralelismo, não é meramente acidental ou sem propósito, mas se deve ao fato de que o inconsciente se comporta de maneira compensatória ou complementar em relação à consciência. A reunião de alguns fatos explica facilmente a razão desta relação.

 

  1. A consciência, devido a suas funções dirigidas, exerce uma inibição dos conteúdos que ela julga incompatíveis e como consequência estes conteúdos mergulham no inconsciente.
  2. A consciência é um processo momentâneo de adaptação, ao passo que o inconsciente contém não só todo o material esquecido do passado individual, mas todos os traços funcionais herdados que constituem a estrutura do espírito humano.
  3. O inconsciente contém todas as combinações de fantasias que ainda não ultrapassaram a intensidade limiar e, com o decorrer do tempo e em circunstâncias favoráveis, entrarão no campo luminoso da consciência.

 

A natureza determinada e dirigida dos conteúdos da consciência é uma qualidade que só foi adquirida relativamente tarde na história da humanidade e é uma aquisição extremamente importante que custou à humanidade os mais pesados sacrifícios, mas que, por seu lado, prestou o mais alto serviço à humanidade.  Sem ela a ciência, a técnica e a civilização seriam simplesmente impossíveis, porque todas elas pressupõem persistência, regularidade e intencionalidade fidedignas do processo psíquico. 

 

Mas essas qualidades trazem consigo também uma grande desvantagem: o fato de serem dirigidas para um fim encerra a inibição e ou bloqueio de todos os elementos psíquicos que parecem ser, ou realmente são incompatíveis. Desta forma, a influência reguladora é eliminada pela atenção crítica e pela vontade orientada para um determinado fim, porque a contrarreação parece incompatível com a direção da atitude. Quando a reação é reprimida, ela perde sua influência reguladora. Por isso, a psique do homem civilizado não é mais um sistema autorregulador.

 

A unilateralidade é uma característica inevitável, pois direção implica unilateralidade, o que é ao mesmo tempo uma vantagem e um inconveniente, mesmo quando parece não haver um inconveniente exteriormente reconhecível, existe contudo, sempre uma contraposição igualmente pronunciada no inconsciente. A contraposição é inofensiva,  enquanto não contiver um valor energético maior. Mas se a tensão dos opostos aumenta, em consequência de uma unilateralidade demasiado grande, a tendência oposta irrompe na consciência, e isto quase sempre precisamente no momento em que é mais importante manter a direção consciente. Assim um orador comete um deslize de linguagem precisamente quando maior é seu empenho em não dizer alguma estupidez. Este momento apresenta o mais alto grau de tensão energética que pode facilmente explodir, quando o inconsciente já está carregado, e liberar o conteúdo inconsciente. 

 

A vida civilizada exige uma atividade concentrada e dirigida da consciência, acarretando, o risco de um considerável distanciamento do inconsciente, Quanto mais capazes formos de nos afastar do inconsciente por um funcionamento dirigido, tanto maior é a possibilidade de surgir uma forte contraposição, a qual, quando irrompe, pode ter consequências desagradáveis.

 

A experiência da terapia analítica nos proporciona uma profunda percepção da importância das influências inconscientes e aprendemos que o inconsciente pode intervir, de maneira cada vez mais perturbadora e aparentemente imprevisível. E as pessoas que menos conhecem o seu lado inconsciente são as que mais influência recebem dele, sem tomarem conta disso. 

 

Não se pode esgotar o inconsciente, mesmo após anos de terapia,  a vida onírica e as instruções do inconsciente continuam desimpedidas. Convém termos sempre presente que a vida do inconsciente prossegue seu caminho e produz continuamente situações problemáticas. 

 

Análise não é uma cura que se pratica de uma vez para sempre, mas tão somente, um reajustamento mais ou menos completo. Mas não há mudança que seja incondicional por um longo período de tempo. A vida tem de ser conquistada sempre e de novo. Por causa do contínuo fluxo da vida, que requer sempre e cada vez mais nova adaptação, pois nenhuma adaptação é definitiva. 

 

É sumamente improvável que haja uma terapia que elimine todas as dificuldades. O homem precisa de dificuldades; elas são necessárias à sua saúde. E somente a sua excessiva quantidade parece desnecessária.  Não se deve perder de vista a regulação inconsciente, tão necessária à nossa saúde mental e física. O conhecimento das influências reguladoras pode nos ajudar a evitar as experiências dolorosas que não são necessárias.

 

A participação secreta do inconsciente no processo da vida está presente sempre e em toda parte, sem que seja preciso procurá-la. O que se procura é a maneira de tornar conscientes os conteúdos do inconsciente que estão sempre prestes a interferir em nossas ações, e, com isto, evitar justamente a intromissão secreta do inconsciente, com suas consequências desagradáveis.

 

A questão fundamental para o terapeuta é não somente como eliminar a dificuldade momentânea, mas como enfrentar com sucesso as dificuldades futuras. A questão é esta: que espécie de atitude espiritual e moral é necessário adotar frente às influências perturbadoras?

 

A resposta, evidentemente, consiste em suprimir a separação vigente entre consciência e inconsciente. Não se pode fazer isto, condenando unilateralmente os conteúdos do inconsciente, mas, pelo contrário, reconhecendo e levando em conta sua importância para a compensação da unilateralidade da consciência. A tendência do inconsciente e a da consciência são dois fatores que formam a função transcendente. É chamada transcendente, porque torna possível organicamente a passagem de uma atitude para outra sem perda do inconsciente.

 

O método construtivo de tratamento pressupõe percepções que estão presentes, pelo menos potencialmente, no indivíduo, e por isso é possível torná-las conscientes. Se o analista ou terapeuta nada sabe dessas potencialidades, não pode ajudar o paciente. O tratamento construtivo do inconsciente, isto é, a questão do seu significado e de sua finalidade, fornece a base para a compreensão do processo que se chama função transcendente. 

 

Para produzir a função transcendente precisamos dos conteúdos inconscientes para complementar os da consciência. A expressão mais facilmente acessível do inconsciente que deparamos em primeiro lugar são os sonhos. O sonho é , por assim dizer, um produto puro do inconsciente. A interpretação dos sonhos seria ideal, um método ideal de sintetizar os materiais conscientes e inconscientes, mas na prática a dificuldade de analisar os próprios sonhos é demasiado grande.

 

As alterações experimentadas no processo de tomada de consciência a partir dos sonhos são inegáveis, mas nestes casos, a consciência apenas reage ao sonho que provém unicamente do inconsciente, pois a consciência está, por assim dizer, inativa no momento do sonho. 

 

Como a tensão energética durante o sono é geralmente muito baixa, os sonhos, comparados com os conteúdos conscientes, são também expressões inferiores de conteúdos inconscientes, muito difíceis de entender sob o ponto de vista construtivo (ou seja do ponto de vista da finalidade, objetivo, sentido…), mas, frequentemente o sonho é mais fácil de compreender sob o ponto de vista redutivo (ou seja causas, motivos…).

 

Como os sonhos são dificilmente utilizáveis quando se trata da função transcendental, devemos voltar-nos para outras fontes: por exemplo, as interferências no estado de vigília, as chamadas “associações livres”, as ideias “sem nexo”, as falhas de memória, os esquecimentos, os atos sintomáticos.  Este material geralmente é mais valioso para o processo construtivo do que para o redutivo. É excessivamente fragmentário e lhe falta uma conexão mais ampla, indispensável para compreensão de seu sentido. 

 

Dessa forma é necessário uma participação mais atuante, digamos assim, da consciência no processo (diferente do que acontece no sonho). Uma situação adequada é o que acontece nas fantasias espontâneas e ou nas criações posteriores da fantasia na linha do próprio sonho que ocorrem no estado de semi sonolência ou surgem “espontaneamente”, assim que a pessoa desperta. Pois o ideal é um nível de atividade mais baixo da consciência e não sua completa inatividade.

 

Sobre as fantasias espontâneas é possível  desenvolver a capacidade de produzi-las mediante exercícios especiais, que Jung denominou de imaginação ativa. Tema sobre o qual exploraremos no próximo texto.


 

Referências:

 

JUNG, Carl Gustav. A Natureza da psique Vol. 8/2: a Dinâmica do Inconsciente - Parte 2: Volume 8. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.