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Sonhos: Uma das formas de expressão do inconsciente

Segundo Jung, o inconsciente é o grande guia, o amigo e conselheiro do consciente e a comunicação entre eles, acontece sobretudo por meio dos sonhos. O inconsciente individual de quem sonha está em comunicação apenas com o sonhador e seleciona símbolos para seu propósito, com um sentido que diz respeito apenas ao sonhador.  

 

Mediante o sonho penetramos no ser humano mais profundo, mais geral, mais verdadeiro, mais durável, mergulhado ainda na penumbra da noite original, quando ainda estava no Todo e o Todo nele, no seio da natureza indiferenciada e despersonalizada. O sonho provém das profundezas, onde o universo ainda está unificado, quer assuma as aparências mais pueris, quer as mais grotescas, quer as mais imorais. (JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões. 35.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.

 

Uma história narrada pelo consciente tem início, meio e fim; o mesmo não acontece no sonho. Suas dimensões de espaço e tempo são diferentes. Para entendê-lo é necessário examiná-lo sob todos os seus aspectos - exatamente como quando tomamos um objeto desconhecido nas mãos e o viramos e reviramos até nos familiarizarmos com cada detalhe.

 

É fácil compreender por que quem sonha tem tendência a ignorar e até rejeitar a mensagem do seu sonho. A consciência resiste, naturalmente, a tudo que é inconsciente e desconhecido. É necessário aceitarmos que o sonho é uma expressão específica do inconsciente.

 

Se julgarmos o sonho um acontecimento normal (o que, na verdade, ele é) temos de ponderar que ou ele é causal - isto é, há uma causa racional para sua existência - ou, de certo modo, intencional. Ou ambos.

 

Nos sonhos se acumulam imagens que parecem contraditórias e ridículas, perde-se a noção de tempo e as coisas mais banais podem se revestir de um aspecto fascinante ou aterrador.

 

A função geral dos sonhos é tentar restabelecer a nossa balança psicológica, produzindo um material onírico que reconstitui, de maneira sutil, o equilíbrio psíquico total. É o que chamo de função complementar (ou compensatória) dos sonhos na nossa constituição psíquica. Explica por que pessoas com ideias pouco realísticas, ou que têm um alto conceito de si mesmas, ou ainda que constroem planos grandiosos em desacordo com a sua verdadeira capacidade, sonham que voam ou que caem. 

 

O sonho compensa as deficiências de suas personalidades e , ao mesmo tempo, previne-as dos perigos dos seus rumos atuais. Se os avisos do sonho são rejeitados, podem  ocorrer acidentes reais. A pessoa pode cair de uma escada ou sofrer um desastre de carro.

 

Assim, os sonhos algumas vezes podem revelar certas situações muito antes de elas realmente acontecerem. Não é necessariamente um milagre ou uma forma de previsão. Muitas crises em nossas vidas têm uma longa história inconsciente. Caminhamos ao seu encontro passo a passo, despercebidos dos perigos que se acumulam. Mas aquilo que conscientemente deixamos de ver é, quase sempre, captado pelo nosso inconsciente, que pode transmitir a informação por meio dos sonhos.

 

Os símbolos oníricos são os mensageiros indispensáveis da parte instintiva da mente humana para a sua parte racional, e a sua interpretação enriquece a pobreza da nossa consciência fazendo-a compreender, novamente, a esquecida linguagem dos instintos.

 

O homem moderno pensa que seus sonhos não têm nenhuma significação apenas porque não os entendem. 

 

Mas por que, podemos perguntar-nos, não pode o sonho ser mais direto e aberto, dizendo o que tem a dizer sem tanta ambiguidade?

 

Várias vezes já me fizeram esta pergunta. E eu também já a fiz a mim mesmo. Parece-me, na verdade, que com a aproximação da consciência, o conteúdo subliminar da psique se “apaga”. O estado subliminar conserva ideias e imagens em um nível de tensão bem  menor do que o que elas possuem quando conscientes. Definem-se com menor clareza; as suas inter-relações são menos óbvias e repousam em analogias mais imprecisas; são menos racionais e, portanto, mais “incompreensíveis”. Esse mesmo fenômeno pode ser observado em todas as condições próximas do sonho, provocadas pelo cansaço, pela febre ou por tóxicos. Mas se alguma coisa acontece, trazendo maior tensão a qualquer dessas imagens , elas se tornam menos subliminares e, por estarem mais próximas do limiar da consciência, mais nitidamente definidas.

 

Assim, um sonho não pode produzir um pensamento definido. E se começar a fazê-lo, deixa de ser sonho, pois estará atravessando o limiar da consciência. É por isso que os sonhos sempre parecem passar por cima ou saltar exatamente os pontos mais importantes para o nosso consciente, e revelam apenas o “rastro da consciência”, como o brilho pálido das estrelas durante um eclipse total do Sol.

 

Devemos entender que os símbolos do sonho são, na sua maioria, manifestações de uma parte da psique que escapa ao controle do consciente. Os sonhos são o mais fecundo e acessível campo de exploração para quem deseja investigar as formas de simbolização do homem. (JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. 2.ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2016.)



 

  Referências:

 

JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. 2.ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2016.

JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões. 35.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.

 

O inconsciente nos dá uma oportunidade, pelas comunicações e alusões metafóricas que oferece. É também capaz de comunicar-nos aquilo que, pela lógica, não podemos saber. Pensemos nos fenômenos de .png