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Viver entre dois mundos

Intuitivamente sentimos a necessidade de viver uma parte do nosso tempo em um mundo imaginário, de magia, de encantamento, em um mundo que não é racional, dito “real”, a realidade nua e crua. Daí vem as horas que passamos assistindo filmes, séries ou lendo livros de fantasias.

 

Jung diz que a psique se autorregula ou tende para isso. Essa necessidade de fantasia talvez seja a psique tentando equilibrar-se. Talvez estejamos unilateralizados na consciência, muito racionais…E a fantasia talvez seja a maneira de manter o inconsciente vivo.

 

Para Jung a fantasia é a atividade espontânea da alma, que sempre irrompe quando a inibição provocada pela consciência diminui ou cessa por completo, como no sono. Durante o sono, a fantasia se manifesta em forma de sonho. Mas mesmo acordados, continuamos sonhando subliminarmente… 

(JUNG, C.G. A prática da psicoterapia O.C. 16/1. 16.ed. Petropólis - Editora Vozes, 2013)

 

A fantasia é o regaço materno onde tudo é gerado e que possibilita o crescimento da vida humana

 

“O meu esforço consiste justamente em fantasiar junto com o paciente. Pois não é pouca a importância que dou à fantasia. Em última análise, a fantasia é para mim o poder criativo materno do espírito masculino. No fundo, no fundo, nunca superamos a fantasia. Existem fantasias sem valor, deficientes, doentias, insatisfatórias, não resta a menor dúvida. Em pouco tempo, qualquer pessoa de mente sadia percebe a esterilidade de tais fantasias. No entanto, como é sabido, o erro não invalida a regra. Toda obra humana é fruto da fantasia criativa. Se assim é, como fazer pouco caso do poder da imaginação? Além disso, normalmente, a fantasia não erra, porque sua ligação com a base instintual humana e animal  é por demais profunda e íntima…O poder da imaginação, com sua atividade criativa, liberta o homem  da prisão da sua pequenez, do ser “só isso”, e o eleva ao estado lúdico. O homem, como diz Schiller, “só é totalmente homem, quando brinca “.”

(JUNG, C.G. A prática da psicoterapia O.C. 16/1. 16.ed. Petropólis - Editora Vozes, 2013)

 

Quando o homem para de sonhar, de imaginar, fantasiar… a energia psíquica não personificada, materializada, vai para o corpo e se apresenta como sintomas.

 

A fantasia tem, em si mesma, um valor irredutível enquanto função psíquica, cujas raízes mergulham tanto nos conteúdos conscientes como nos inconscientes, e tanto no coletivo como no individual.

(JUNG, C.G. O eu e o inconsciente O.C. 7/2. 27.ed. Petropólis - Editora Vozes, 2015)

 

Encontramos na fantasia criadora a função unitiva que estamos buscando, a união entre consciência e inconsciente, a união dos dois mundos em que vivemos.

 

Penso que enquanto estamos nessa vida consciente este é o nosso destino, estarmos “crucificados” entre esses dois mundos, o racional e o irracional, o mundo imaginário e o mundo “real”,... Seria a ciência (razão) e a arte (imaginação) também representações atuais desses dois mundos?

 

A magia e o mistério dependem apenas do “olhar” do observador

 

Como é necessário reaprender a pensar e olhar de forma ambígua, sempre em pares de opostos, que aparentemente são contrários e estão separados, mas na verdade são faces de uma única e mesma coisa, apenas dependendo do olhar do observador.

 

O que nos leva a pensar que se o observador está no mesmo patamar do “objeto” dependendo de qual ângulo ele está, verá apenas uma das faces do objeto de cada vez, tendo portanto que mudar de posição para ver a face oposta do objeto. 

No entanto, se o observador estiver acima do objeto será possível ver as duas faces ao mesmo tempo. Jung chamou a esse “novo olhar” do observador de função transcendente que surge da união de aparentes opostos. Mas podemos explorar melhor esse tema em um próximo texto.

 

Por hora, vamos ficar com as reflexões sobre fantasia…imaginação…mistério… magia…e o nosso fascínio pelo desconhecido. O estado  de encantamento pela vida que temos quando somos crianças e nos faz ver tudo como algo a ser descoberto, explorado. 

 

Carl Jung disse em sua autobiografia: É importante que tenhamos um segredo e a intuição de algo incognoscível.  Esse mistério dá à vida um tom impessoal e “numinoso”. Quem não teve uma experiência desse tipo perdeu algo de importante. O homem deve sentir que vive em um mundo misterioso, sob certo aspectos, onde ocorrem coisas inauditas - que permanecem inexplicáveis - e não somente coisas que se desenvolvem nos limites do esperado. O inesperado e o inabitual fazem parte do mundo. Só então a vida é completa. Para mim, o mundo, desde o início, era infinitamente grande e inabarcável.

 

Convido você a fazer esta reflexão...Você vive em um mundo de mistério? Ou para você não há mais nada a descobrir ?

 

A vida é o próprio mistério, diz Khalil Gibran. 

 

Penso que a magia e o mistério da vida, dependem do “olhar” do observador.


 

Referências:

JUNG, C.G. A prática da psicoterapia O.C. 16/1. 16.ed. Petropólis - Editora Vozes, 2013

JUNG, C.G. O eu e o inconsciente O.C. 7/2.  27.ed. Petropólis - Editora Vozes, 2015

JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões. 35.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.


 

 

O homem não sabe mais fabular.E com isso perde muito, pois é importante e salutar falar sobre aquilo que o espírito não pode aprender, tal como uma boa história de fantasmas, ao pé de uma lareira .png