Arquétipo é antes de tudo, unicamente uma virtualidade, uma existência potencial, uma possibilidade de preformação.
Arquétipos são combinações de padrões e forças universalmente predominantes que “habitam” o inconsciente coletivo. São formas preexistentes e inconscientes que parecem fazer parte da estrutura psíquica herdada e pode, portanto, manifestar-se espontaneamente sempre e por toda parte.
“O homem “possui” muitas coisas que ele não adquiriu, mas herdou dos antepassados. Não nasceu tabula rasa, apenas nasceu inconsciente. Traz consigo sistemas organizados e que estão prontos a funcionar numa forma especificamente humana; e isto se deve a milhões de anos de desenvolvimento humano.
Da mesma forma como os instintos dos pássaros de migração e construção de ninho nunca foram aprendidos ou adquiridos individualmente, também o homem traz de berço o plano básico de sua natureza, não apenas de sua natureza individual, mas de sua natureza coletiva.
Esses sistemas herdados correspondem às situações humanas que existiram desde os primórdios: juventude, velhice, nascimento e morte, filhos e filhas, pais e mães, uniões, etc. Apenas a consciência individual experimenta essas coisas pela primeira vez, mas não o inconsciente.
A mente humana possui estruturas universais, tal como o corpo humano, e elas podem ser descobertas através de um método interpretativo e comparativo. Essas estruturas universais seriam os arquétipos.
O arquétipo é na realidade, uma tendência instintiva, tão marcada como o impulso das aves para fazer seu ninho e o das formigas para se organizarem em colônias.
Mas os arquétipos não são limitados aos instintos
É preciso que eu esclareça aqui a relação entre instinto e arquétipo. Chamamos de instinto os impulsos fisiológicos percebidos pelos sentidos. Mas, ao mesmo tempo, estes instintos podem também manifestar-se como fantasias e revelar, muitas vezes, a sua presença apenas por meio de imagens simbólicas.
São essas manifestações que chamo de arquétipos. A sua origem não é conhecida; e eles se repetem em qualquer época e em qualquer lugar do mundo - mesmo onde não é possível explicar a sua transmissão por descendência direta ou por “fecundações cruzadas” resultantes da migração.
Os arquétipos e as representações arquetípicas
Os mitos e os contos de literatura universal encerram temas bem definidos que reaparecem sempre e por toda parte. Encontramos esses temas nas fantasias, nos sonhos, nas ideias delirantes e nas ilusões dos indivíduos que vivem atualmente. A essas imagens e correspondências típicas Jung denominou representações arquetípicas.
Elas nos impressionam, nos influenciam, nos fascinam. Tem sua origem no arquétipo, que em si mesmo, escapa à representação, pois sendo uma forma, não possui um conteúdo determinado. O arquétipo em si mesmo é vazio; é um elemento puramente formal, apenas uma forma de representação dada a priori. As representações não são herdadas apenas suas formas o são.
Sei que é difícil apreender esse conceito, já que estou tentando descrever com palavras uma coisa que, por natureza, não permite definição precisa. Mas como muitas pessoas pretendem tratar arquétipos como se fossem parte de um sistema mecânico, que se pode aprender de cor, é importante esclarecer que não são simples nomes ou conceitos filosóficos.
São porções da própria vida - imagens integralmente ligadas ao indivíduo através de uma verdadeira ponte de emoções. Por isso é impossível dar a qualquer arquétipo uma interpretação arbitrária (ou universal); ele precisa ser explicado de acordo com as condições totais de vida daquele determinado indivíduo a quem o arquétipo se relaciona.
Por exemplo, não se pode dizer que, em qualquer tempo ou circunstância, o símbolo da cruz terá a mesma significação. Se fosse assim, perderia sua numinosidade e vitalidade para ser apenas uma simples palavra.
Os arquétipos criam mitos, religiões e filosofias que influenciam e caracterizam nações e época inteiras. O conteúdo essencial de todas as mitologias, de todas as religiões e de todos os ismos é arquetípico.
Provavelmente a verdadeira essência do arquétipo não pode tornar-se consciente; ela é transcendente
Ainda estamos longe de compreender o inconsciente ou os arquétipos - os núcleos dinâmicos da psique - em todas as suas implicações. Tudo que podemos constatar até agora é o enorme impacto que os arquétipos produzem no indivíduo, determinando suas emoções e perspectivas éticas e mentais, influenciando o seu relacionamento com as outras pessoas e afetando, assim, todo o seu destino.
“Não devemos entregar-nos à ilusão de que finalmente poderemos explicar um arquétipo e assim ‘liquidá-lo’. A melhor tentativa de explicação não será mais do que uma tradução relativamente bem-sucedida, num outro sistema de imagens.”
Carl Jung
Não tive a pretensão de explicar o que é arquétipo neste texto, mas se ao menos eu tiver despertado o seu interesse para aprofundar no tema, já me dou por satisfeita.
Referências:
JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. 2.ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2016.
JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões. 35.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.
SILVEIRA, Nise da. Jung Vida e Obra. 1.ed. Rio de Janeiro - Paz & Terra, 2023.