Considerado um dos maiores clássicos da literatura inglesa e, porque não dizer, da literatura mundial, trata-se, aparentemente, de uma obra sobre paixão, vingança e redenção. Mas proponho aqui aprofundarmos um pouco mais à luz da psicologia analítica (Junguiana) e analisarmos sobre alguns aspectos porque essa é uma obra que retrata bem mais do que uma trágica história de amor e obsessão.
O primeiro ponto é que o motivo desta obra ser tão lida há mais de um século, é porque se trata de uma obra arquetípica, envolve imagem e emoção ao mesmo tempo, exerce um fascínio na psique, esse fascínio nada mais é do que uma autorreflexão, uma reflexão que se volta sobre nossa natureza humana fundamental.
Por isso, a obra-prima é, ao mesmo tempo, objetiva e impessoal, tocando nosso ser mais profundo. Obras arquetípicas geralmente causam estranheza em relação a certas categorias morais e nada falta na escala que vai do incompreensível e sublime até o perverso e grotesco.
Todos os arquétipos (e seres humanos) são ambivalentes
Um dos arquétipos presentes na obra é a dualidade dos personagens que nos desperta raiva e, ao mesmo tempo, compaixão. Os personagens principais têm uma vida necessariamente cheia de conflitos, relacionamentos marcados por amor e ódio, uma vez que dois poderes lutam dentro deles. No personagem Heathcliff é possível perceber que há uma inferioridade, uma faculdade deficiente de adaptação de sua personalidade humana.
Todas essas características refletem a ambivalência que existe em todos os seres humanos. Somos seres duais por essência, primeiro porque vivemos entre dois mundos, o material percebido pelo corpo e o mundo espiritual com a psique. Se preferir, podemos falar também que navegamos entre dois mundos, o da consciência e o inconsciente (quando dormimos, por exemplo).
Não podemos negar a nossa dualidade, não somos seres coesos. No entanto, nossa ambivalência não deve ser entendida como erro, mas aspectos contrastantes de uma mesma coisa, como a dupla origem da vida. Precisamos olhar, aceitar e integrar nossos opostos interiores. Só conseguimos chegar além dos pares de opostos se não negamos nenhum dos lados.
Nos animais e no homem primitivo, os opostos estão mais ligados, no homem civilizado estão mais separados, por isso a unilateralidade. No entanto, uma unilateralidade da consciência leva naturalmente a uma compensação do inconsciente, que se manifestará por meio de depressões, neuroses e psicoses. O lado reprimido invariavelmente virá à consciência de jeito ou de outro, no entanto, quando reprimido, ganha força de propulsão muito maior do que quando aceito espontaneamente.
Os Arquétipos do Masculino (Animus) e Feminino (Anima) Inconscientes
O outro aspecto inconsciente que se apresenta na obra é o que na psicologia Junguiana é denominado de Anima (a alma no homem) e Animus (o espírito na mulher), são representações de realidades psíquicas, arquétipos cuja função é proporcionar o relacionamento com o mundo interior, uma espécie de ponte entre consciente e inconsciente, que apresenta estágios ou graus de evolução ao longo da vida e na obra o primeiro estágio é percebido por meio da projeção mútua.
Anima (Vida)
A mulher é a anima encarnada para o homem. Catherine Earnshaw representa a própria alma de Heathcliff projetada.
" - gritou Heathcliff, com terrível veemência… Sê sempre comigo…toma qualquer forma…empurra-me à loucura! Mas não me deixes neste abismo, onde não posso encontrar-te! Oh! meu Deus! É indivisível! Não posso viver sem minha vida! Não posso viver sem minha alma!" (BRONTE, Emily. O morro dos ventos uivantes. 1.ed. Barueri - Garnier, 2023.)
"Na primeira metade da vida, a anima projeta-se de preferência no exterior, sobre seres reais, estando sempre presente nas problemáticas do amor, suas ilusões e desilusões. Mas na segunda metade da existência, quando o jogo dessas projeções vai se esgotando, é a mulher dentro do homem durante anos reprimida (porque, no consenso coletivo, um homem nunca deve permitir que o sentimento influencie na sua conduta), quem penetra na sua vida sem ser chamada.
O “homem forte” estará então frequentemente amuado, surgirão intempestivas mudanças de humor, explosões emocionais, caprichos…" (SILVEIRA, Nise da. Jung Vida e Obra. 1.ed. Rio de Janeiro - Paz & Terra, 2023.)
Animus (Significado)
No inconsciente coletivo da mulher existe uma fusão do humano com o animal (Dionisíaco), essa animalidade psíquica contém espiritualidade. Como mencionamos acima, todo arquétipo tem seu lado luminoso e seu lado sombrio.
Heathcliff encarna os atributos negativos do animus em toda a sua crueza: brutalidade, crueldade, capacidade destruidora.
"… Por isso, ele jamais saberá como o amo, e isso não é porque ele seja bonito, Nelly, mas porque ele é mais eu mesma do que sou. Seja do que for que nossas almas sejam feitas, a sua e a minha são as mesmas…" (BRONTE, Emily. O morro dos ventos uivantes. 1.ed. Barueri - Garnier, 2023.)
"Projetado sobre o homem amado, faz dele uma imagem ideal, impossível de resistir à convivência cotidiana. Vêm as decepções inevitáveis.
As relações entre homem e a mulher ocorrem dentro do tecido fantasmagórico produzido pela anima e pelo animus. Portanto, não é para surpreender que surjam emaranhados na vida dos casais." (SILVEIRA, Nise da. Jung Vida e Obra. 1.ed. Rio de Janeiro - Paz & Terra, 2023.)
"… um estado de projeção perfeito e feliz não dura muito, sobretudo quando se tem uma relação próxima com a pessoa em questão. Nesse caso, é frequente que em pouco tempo a incongruência entre a imagem e seu portador se torne visível.
…anima e animus determinam um ao outro, isto é, que uma manifestação de anima evoca o animus e vice-versa, com o que, põe-se em andamento um círculo vicioso difícil de interromper, forma-se uma das piores complicações no relacionamento entre homem e mulher." (JUNG, Emma. Animus e Anima Uma introdução à Psicologia Analítica sobre os Arquétipos do Masculino e Feminino Inconscientes. 2.ed. São Paulo - Cultrix, 2020.)
Obras-primas são expressões de essencialidades desconhecidas
"Uma obra-prima é como um sonho que apesar de todas as suas evidências nunca se interpreta a si mesmo e também nunca é unívoco. Nenhum sonho diz: “Você deve”, ou “esta é a verdade”; ele apenas propõe uma imagem, tal como a natureza que faz uma planta crescer. Compete a nós mesmos tirarmos as conclusões." (JUNG, C.G. O indivíduo moderno em busca de uma alma. 1.ed. Petropólis - Editora Vozes, 2022)
Na próxima vez que você ler um clássico, procure por representações arquetípicas. Afinal, os arquétipos sempre apresentam uma significativa carga emocional (numinosidade), não há como ser indiferente. Se pergunte por que determinadas histórias, personagens ou falas despertam determinadas emoções em você. Acredito que é possível autoconhecer-se através dos livros, a literatura pode nos proporcionar excelentes autorreflexões.
Boas leituras e boas reflexões!
Referências:
BRONTE, Emily. O morro dos ventos uivantes. 1.ed. Barueri - Garnier, 2023.
JUNG, C.G. O indivíduo moderno em busca de uma alma. 1.ed. Petropólis - Editora Vozes, 2022.
JUNG, Emma. Animus e Anima Uma introdução à Psicologia Analítica sobre os Arquétipos do Masculino e Feminino Inconscientes. 2.ed. São Paulo - Cultrix, 2020.
SILVEIRA, Nise da. Jung Vida e Obra. 1.ed. Rio de Janeiro - Paz & Terra, 2023.