As fases típicas do processo analítico
Jung descreveu certas fases típicas do processo analítico. Ele distinguiu quatro estágios característicos: confissão , elucidação, educação e transformação. O primeiro passo ou estágio, a confissão, tem como protótipo as práticas confessionais de quase todas as religiões. Isso significa que o paciente toma consciência de tudo o que está oculto, reprimido, carregado de culpa, de tudo o que o isola do convívio com seus semelhantes e o confessa ao médico. Os conteúdos reprimidos podem consistir em pensamentos, desejos, emoções e afetos.
Esse primeiro estágio de catarse (purificação) serve para trazer à consciência a sombra, isto é, os aspectos sombrios inferiores da personalidade. A cura, contudo, nem sempre começa nesse estágio. Em muitos casos, o paciente regride, depois da confissão, a uma dependência infantil do médico ou do próprio inconsciente.
Essa dependência (transferência) tem sua fonte, na maioria dos casos, em fantasias inconscientes. Não são material reprimido, essas fantasias são conteúdos que jamais se tornaram conscientes, ou seja, não são capazes - ou ainda não - de aflorar à consciência. Para tornar conscientes esses conteúdos, Jung usava o método da interpretação dos sonhos. Trata-se do estágio da elucidação.
Uma vez assimilados esses conteúdos na consciência, a tarefa seguinte é a educação ou de autoeducação como ser social. Com essa educação, pode parecer que todo o necessário na jornada psicoterapêuta foi alcançado, não fosse o fato de essa “normalidade”, embora seja de fato uma solução para algumas pessoas, ser também, para outras, uma prisão.
Parece que há cada vez mais pessoas que sofrem, como Jung percebeu, daquilo a que deu o nome de “neurose facultativa” ou “opcional” - ou seja, elas são normalmente adaptadas socialmente, ou podem ser, mas percebem que é impossível acompanhar a desorientação neurótica desse coletivo supostamente “normal”.
Junge escreve: “Entre os chamados neuróticos dos nossos dias, há muitos que em outras épocas não teriam sido neuróticos - isto é, divididos contra si mesmos. Se tivessem vivido num período e num ambiente em que o homem ainda estava ligado pelo mito ao mundo dos ancestrais e, portanto, à natureza, verdadeiramente experimentada, e não vista tão somente de fora, eles teriam sido poupados dessa divisão em si mesmo.” (FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025).
Portanto, se não se tratar de um indivíduo inadaptado, mas de uma pessoa normal que sofre das deformações neuróticas do mundo coletivo, o médico não pode ajudá-la com um tratamento voltado para a normalidade. Temos então o quarto estágio, a que Jung denominou Individuação, que substitui a compulsão pelo desenvolvimento, por um processo de maturação, um crescimento em direção à maturidade.
É difícil descrever esse processo cientificamente, porque a individuação inclui muitas variações individuais, como o seu próprio nome indica. Mesmo assim é possível discernir certas características gerais, caso se observe um número suficiente de casos.
Características gerais do processo de individuação
No primeiro encontro com o próprio inconsciente, costuma-se descobrir as qualidades inferiores e “sombrias" que foram reprimidas ou que se tentou suprimir conscientemente. O inconsciente se mostra no início, digamos assim, como a “sombra” da personalidade que o ego acredita ser. A sombra, no entanto, nem sempre é formada por aspectos inferiores da personalidade, como impulsos sexuais e de poder.
Uma vez que esses aspectos da personalidade-ego se tornem conscientes e sejam integrados, costuma vir à luz um aspecto contrassexual do inconsciente. Se a personalidade consciente estiver mais comprometida com o aspecto Logos (termo grego para razão, pensamento) da vida (geralmente nos homens), o aspecto Eros (termo da mitologia grega para amor, desejo) aparece personificado em figuras femininas em sonhos. Inversamente, se o aspecto Eros da vida tiver recebido mais atenção do ego (frequentemente nas mulheres), haverá personificações masculinas do aspecto Logos.
Jung deu a essas personificações contrassexuais da personalidade inconsciente o nome de anima (nos homens) e de animus (nas mulheres). Num homem, anima se expressa, principalmente na forma de humores ou tonalidades emocionais positivas ou negativas, específicas; de fantasias eróticas; de impulsos; de inclinações e de incentivos emocionais para a vida.
O animus da mulher, por sua vez, assume antes a forma de impulsos inconscientes de ação; de súbita iniciativa; de enunciação autônoma de opiniões; de razões ou convicções. Esses componentes contrassexuais da personalidade formam, por um lado, uma ponte nas realções com o sexo oposto (na maioria das vezes por meio de projeções); por outro lado, também constituem um obstáculo especial na tentativa de compreender o parceiro, visto que a anima do homem tende a irritar as mulheres, e o animus nas mulheres tende a irritar os homens. Essa é quase sempre a causa da chamada “guerra dos sexos”, e a maioria das dificuldades conjugais pode ser remetida à influência desses fatores.
Caso se retirem esses fatores psíquicos contrassexuais inconscientes, por assim dizer, das pessoas nas quais são projetados, integrando-as à consciência, o inconsciente vai revelar uma personalidade superior que nos homens, costuma ter características do “mestre”, do velho sábio mágico, do semideus; nas mulheres, as da cortesã, da grande mãe, da velha sábia. Jung deu a esse aspecto do inconsciente o nome de “Self”, tomando o termo da filosofia indiana. O Self parece abranger todos esses aspectos da psique antes mencionados, incluindo o ego. O Self é, vamos dizer, o ser humano maior e eterno que há em nós.
Essa imagem do Self nem sempre se personifica, pode ser simbolizada com certa frequência por formas abstratas como as mandalas, enfatizando mais a ordem e o significado da totalidade psíquica do que os aspectos puramente pessoais do Self.
Jung sugeriu que a sequência de transformações já mencionadas não se encerra no Self. É provável que existam poderes adicionais por trás da personificação do Self, mas ele decidiu não tentar uma descrição mais aprofundada deles, pois achava que ela não seria compreendida. Estava convencido de que horizontes existenciais cada vez mais longínquos poderiam abrir-se à nossa consciência em crescimento.
A identificação com aspectos inconscientes
A descrição de Jung apresenta, digamos, uma escala de graus de dificuldade no processo de integração. Tornar-se consciente da sombra poderia ser descrito como um trabalho iniciante; a integração da anima e do animus é uma tarefa bem mais avançada e poucos hoje conseguem passar desse ponto. Os componentes estão presentes em todo homem e toda mulher, mas as pessoas os encontram de modo geral na projeção, ou se identificam inconscientemente com eles.
Se por exemplo, não se souber coisa alguma a respeito da própria sombra, pode-se simplesmente parar e perguntar a si mesmo quais são as características das outras pessoas que nos irritam mais do que deveriam. Aí está a nossa sombra! O animus e a anima em geral influenciam os bastidores dos relacionamentos amorosos, mas também podem ser identificados na efeminação de um homem ou na masculinização de uma mulher.
Na história recente é possível identificar vários “líderes” políticos que deram exemplos de identificação com o Self e da mesma forma em épocas anteriores figuras religiosas que diziam falar em nome de Cristo, Deus ou do Espírito Santo não demonstraram estar menos identificados com o Self. Todo comportamento ultra-autoritário, seja na ciência, na política ou na religião, indica uma identificação com o Self.
Há ainda um tipo de identificação com conteúdos inconscientes com a qual deparamos frequentemente, que são as pessoas que tem a ilusão de serem idênticas ao papel social que representam (Jung dá a esse papel o nome de persona): o sábio erudito ou o médico “sabe-tudo”, o funcionário “enérgico”, a enfermeira “bondosa”, o sacerdote “paternal e benevolente” etc. Para evitar essa armadilha é necessário ter a capacidade para a pronta discirminação entre o papel público que se exerce e o ego pessoal.
Enfim, toda e qualquer identificação com aspectos do inconsciente é o inverso de torná-los conscientes.
A experiência do processo de individuação
Esses termos de Jung (persona, sombra, animus, anima), que servem para diferenciar conteúdos inconscientes típicos, não devem ser entendidos, em nenhuma circunstância, como mero conceitos intelectuais ou definições. São designações, nomeações, a fim de estabelecer uma certa ordem no caos das experiências interiores amplamente variadas de muitos homens e mulheres, de maneira muito semelhante à classificação de plantas e animais.
O que Jung denominou processo de individuação é uma experiência que não se restringe de maneira alguma ao contexto da terapia junguiana. Esse caminho para a maturidade é seguido naturalmente por muitas pessoas, sozinhas ou na dependência de algum valor espiritual tradicional. O terapeuta, ao tratar desse tipo de paciente, funciona apenas como uma parteira no nascimento de um processo de crescimento e de tomada de consciência, na direção da qual a própria natureza parece estar lutando por seguir. (FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025.)
Na realidade a individuação é uma expressão desse processo biológico - simples ou complicado, conforme o caso, por meio do qual toda coisa viva se torna o que está destinada a ser desde o começo. A experiência desse centro mais elevado, traz ao indivíduo um senso de significado e realização, em que ele pode aceitar a si mesmo e encontrar um caminho intermediário entre os opostos presentes em sua natureza interior. Em vez de ser uma pessoa fragmentada, obrigada a apegar-se a apoio coletivos, o indivíduo torna-se um ser humano inteiro, autoconfiante, que já não precisa viver como um parasita de seu ambiente coletivo, mas que enriquece e fortalece esse mesmo ambiente com a sua presença. A experiência do Self traz a sensação de pisar num solo firme no interior de si mesmo, num terreno da eternidade interior que nem a morte física pode tocar.
Referências:
FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025.