Numinoso: Conceito do teólogo alemão Rudolf Otto, que designa o inexprimível, misterioso, tremendo, propriedades que possibilitam a experiência imediata do divino.
Para Otto (teólogo, filósofo e erudito em religiões comparadas) o encontro humano com o “sagrado”, como imagem, ritual ou som, só poderia ser descrito com precisão com palavras veementes como Mistério tremendo e fascinante, uma expressão que ele explica meticulosa e profundamente em sua exposição da experiência numinosa.
Entrar na presença do “Sagrado” era pra ele sentir-se estremecido até as bases pelo poder e pela impressionante magnitude do Outro que é confrontado nessa experiência. Para descrever esse estado, ele emprega palavras como “tremor”, “estupor”, “espanto” e “assombro”.
Como estudioso das inúmeras formas de misticismo no mundo, ele também associou essa vivência ao “vazio” dos místicos budistas. Esse momento religioso universal é primariamente uma experiência de sentimento, enquanto a teologia é sobretudo um exercício de pensamento e reflexão.
Carl Jung confirmou o significado fundamental da experiência numinosa em sua vida e obra, com a seguinte afirmação:
“Sempre me pareceu que os verdadeiros marcos eram certos acontecimentos simbólicos caracterizados por um forte tom emocional. Você tem toda razão, o principal interesse do meu trabalho não está no tratamento de neuroses, mas na abordagem do numinoso.”
O fato é que o acesso ao numinoso é a verdadeira terapia, e, na medida em que você vive a experiências numinosas, fica livre da maldição da patologia. A própria doença assume um caráter numinoso.”
A vivência de experiências numinosas de que fala Jung refere-se a experiências religiosas de uma natureza quase mística. Por si só, e sem maior reflexão ou interpretação, essa vivência poderia muito bem convencer a pessoa de que a vida tem sentido.
A experiência numinosa cria um vínculo potencialmente convincente com o Infinito, o que com frequência leva à sensação de que falhas de caráter, como dependências químicas ou distúrbios comportamentais, são triviais em comparação com a profunda visão da totalidade e unidade alcançada no estado místico.
O sintoma patológico pode assim ser interpretado como um estímulo para se prosseguir na busca espiritual, ou como uma porta paradoxal para a transcendência, e essa interpretação pode dar sentido à doença ou à própria falha de caráter.
Para pessoas modernas e argutas no que diz respeito à psicologia, porém, uma resposta espiritual como essa significa tão somente um curativo temporário, jamais uma solução definitiva para os problemas criados pela neurose. Para essas pessoas - em geral as que costumam procurar análise em vez de orientação espiritual ou peregrinações religiosas -, a consciência espiritual por si só não é suficiente.
Empreender buscas espirituais e ter experiências numinosas podem ser momentos importantes para a individuação, mas, por si sós, não são suficientes para estabelecer, quanto mais completar, um processo de individuação, embora possam criar uma mudança profunda de atitude e de personalidade, como no caso de Paulo de Tarso a caminho de Damasco. De modo geral, porém, uma experiência numinosa é um sinal, o termo numinoso inclusive deriva do latim numen, que significa assentimento ou sinal.
Em outras palavras, a vivência de experiências numinosas, conquanto significativas em si mesma, não são o resultado final; antes, ela oferece os ingredientes essenciais (prima matéria alquímica) para estágio seguintes de aprimoramento na obra de individuação.
Em experiências numinosas, o ego vivencia um conteúdo do inconsciente em projeção. Quanto mais simbólica a experiência, tanto mais arquetípico o conteúdo. Tais experiências criam símbolos que ligam a consciência ao inconsciente. As imagens arquetípicas se entrelaçam no tecido da identidade consciente da pessoa. Integram-se a ela e propiciam a cura, libertando a pessoa das limitações da estrutura do ego puramente imediata e temporal, e assim contribuindo, em essência, para a formação do que Jung denominou “função transcendente”, que é uma estrutura psicológica de identidade constituída de elementos pessoais e arquetípicos.
A jornada psicológica da individuação perpassa o reino do numinoso, onde o herói/heroína dirige toda a sua atenção aos sinais que se manifestam nessas experiências. Mas então o caminho o leva mais uma vez para fora desse reino.
Essa jornada não encontra seu destino final no “Sagrado” ou em seu santuário. A individuação, portanto, não equivale a uma jornada mística, que em seu ápice outorga o prêmio da experiência da união com Deus ou da visão do Mistério tremendo. A individuação não culmina em um ato de adoração, e também não se identifica com a resoluta via negativa de tradições como o zen-budismo.
Ela comporta elementos de ambos - vivenciar o numinoso e limpar o espelho da consciência - mas os inclui como dois movimentos na esfera de uma tarefa maior. Para o herói/heroína espiritual, tudo o mais representa afastamento da culminância da união mística na experiência numinosa. Para o herói/heroína da individuação, por outro lado, experiências numinosas são matéria prima matéria para a obra de individuação, que prossegue de modo infinito.
Permanecer ou “ficar preso” no território do numen, seja ele definido como cheio ou vazio, equivaleria a ficar incorporado no inconsciente, o que significa um estado patológico de inflação exaltada, perda dos limites e da integridade do ego, e talvez até a permanência em um estado de psicótica defesa paranoica. Tais estados costumam ser destrutivos para indivíduos e grupos.
O objetivo da individuação, diferente do objetivo da busca religiosa, não é a união com o divino ou a salvação, mas sim a integração e a totalidade, a agregação dos opostos inerentes ao Self em uma imagem de unicidade e a integração dessa imagem à consciência.
Para Jung, o objeto da experiência numinosa é um conteúdo da psique inconsciente que precisa tornar-se consciente. O trabalho psicológico de individuação é um processo de sublimação que transforma o espiritual e psicológico e torna a experiência numinosa prática e proveitosa. As imagens arquetípicas expostas em experiências numinosas integram-se ao funcionamento psicológico e são assimiladas no mundo contemporâneo.
Referências:
STEIN, Murray. Jung e o Caminho da Individuação. 1.ed.São Paulo:Cultrix, 2020.