Na realidade, trata-se apenas de uma moderna expressão para uma experiência interior que nasceu com a humanidade, a experiência que ocorre quando algo estranho e desconhecido toma conta de nós a partir de dentro de nós mesmos; quando sonhamos, temos inspirações e vislumbres que sabemos não terem sido “inventados” por nós, mas que vieram a nós a partir de uma psique “exterior” e abriram seu caminho até a consciência.
Em épocas anteriores, esses efeitos de processos inconscientes eram atribuídos a um fluido divino (mana), a um deus, a um demônio ou a um “espírito”. Essas designações exprimiam o sentimento de uma presença objetiva, estranha e autônoma, bem como de uma sensação de alguma coisa irresistível a que o ego consciente tem de submeter-se.
Essas experiências não são de modo algum raras. No passado, e mesmo hoje, entre pessoas que vivem próximas à natureza, elas se acham entre as ocorrências óbvias. Todo curandeiro primitivo depende de suas visões e seus sonhos; todo caçador conhece impulsos e intuições sobrenaturais; toda pessoa genuinamente religiosa teve, em alguns momentos da vida, essas experiências interiores.
Mesmo na nossa civilização ocidental, um número de pessoas maior do que pensamos experimenta coisas desse tipo, embora apenas raramente falem abertamente sobre elas, por temerem a rejeição racionalista tão característica da cultura contemporânea.
A existência do inconsciente somente pode ser conhecida pela luz da consciência.
O existir só é possível a partir do “saber", ou seja, consciência. Sem consciência, não há existência. E não existe consciência sem diferenciação dos opostos.
A psique forma um todo, composto de consciência + inconsciente. A psique também é autorreguladora, ou seja, se ajusta por compensações. É no inconsciente que se desenvolve a contra-reação reguladora da psique em relação à consciência. O inconsciente exerce uma espécie de compensação, ou seja, completa uma unilateralidade consciente, ou equilibra-a na direção da totalidade. No entanto, o inconsciente também é equilibrado em si mesmo, para além do papel compensatório que ele desempenha para o consciente.
O inconsciente tem sua estrutura própria que precede toda experiência consciente com um a priori, portanto representa a própria fonte da vida. Segundo C.G. Jung, trata-se da matriz criadora autônoma da vida psíquica normal. É a vida psíquica antes, durante e depois da tomada de consciência. A consciência por outro lado é um fenômeno temporário.
Quando nascemos partimos do inconsciente para a consciência (podemos constatar isso observando como uma criança até mais ou menos 7 anos ainda está formando a consciência do eu/ego), mas na segunda metade da vida não é mais a consciência que deriva do inconsciente é o inconsciente que produz consciência.
Pode se dizer que o inconsciente é uma psique impessoal comum a todos os seres humanos que se expressa através de uma consciência pessoal.
O inconsciente é formado por conteúdos paradoxais e antinômicos por si mesmos.
“O inconsciente é simultaneamente o local onde encontramos tudo aquilo que nos desagrada, ou tememos, e o reservatório de todas as possibilidades vitais não exploradas.”
(PINHEIRO, Heráclito. Psicologia junguiana: uma introdução. 1.ed. Fortaleza - Dummar, 2019)
O inconsciente é vivo e quer participar da vida consciente. E sem que saibamos ele acompanha a nossa existência.
“Podemos sempre contar com isso e podemos ter certeza que o inconsciente - caso nós não estejamos interessados em nosso próprio destino - o inconsciente está.”
(JUNG, C.G. Sobre Sonhos e Transformações. 1.ed. Petropólis - Editora Vozes, 2014)
O inconsciente nos convida ao mistério, mas quando não ouvimos ou não aceitamos o convite, ele nos convoca e inicia o processo de tornar-se consciente, mesmo contra a vontade ou desconhecimento da consciência, por meio de depressões, neuroses e psicoses. O conhecimento das influências reguladoras do inconsciente pode nos ajudar a evitar as experiências dolorosas que nem sempre são necessárias, pois o perigo do inconsciente cresce na mesma proporção de sua repressão.
O inconsciente precisa de projeção para que seja percebido pela consciência. Caso não haja alguém, em algum lugar, que esteja recebendo a projeção de determinado conteúdo, ele é sentido dentro do indivíduo.
A consciência não produz sua própria energia. A energia vem do inconsciente. Conteúdos inconscientes mantém a vitalidade da consciência. Por outro lado se a consciência se atribui de conteúdos do inconsciente, perde o poder de discriminação, sem esse poder não há consciência, voltando para a inconsciência. Portanto é preciso aprender a se relacionar com o inconsciente, sem se deixar dominar por ele.
O indivíduo só conserva sua independência se não se identificar com um dos opostos mas conseguir manter o meio-termo entre eles. Isto só se torna possível, se ele permanece consciente dos dois opostos ao mesmo tempo.
A consciência só pode existir através do permanente reconhecimento e respeito ao inconsciente, mas sem que a consciência se identifique com o inconsciente.
A psicologia pode ajudar o inconsciente a tornar-se consciente à medida que ajuda o encontro do indivíduo com o seu próprio deus ou daimon, a medida que ajuda na batalha com as emoções, afetos, fantasias, inspirações criadoras e obstáculos poderosíssimos que vêm à luz a partir de dentro, a partir de nossas experiências numinosas interiores.
Meditação é uma das formas de mergulho no inconsciente, sonhos e imaginação ativa também nos proporcionam esse contato, pois permitem a entrada de elementos sentimentais e imaginativos na consciência.
Jung foi o primeiro a descobrir a espontaneidade criativa da psique inconsciente e a segui-la conscientemente. Ele permitiu que o inconsciente se expressasse diretamente naquilo que escreveu nas últimas obras.
(“ Tudo o que escrevi tem um fundo duplo”, disse ele certa vez).
(FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025)
“Hoje quando olho para trás e reflito sobre o sentido do que ocorreu na época em que me consagrava às minhas fantasias, tenho a impressão de ter sido subjugado por uma mensagem poderosa. Havia nessas imagens elementos que não me diziam respeito, mas também a muitas outras pessoas. Fui tomado pelo sentimento de que não deviam pertencer somente a mim mesmo, mas à comunidade. Os conhecimentos que eu buscava e que me ocupavam ainda não faziam parte da ciência vigente naqueles dias. Eu mesmo devia realizar a primeira experiência e, por outro lado, devia tentar colocar no terreno da realidade aquilo que ia descobrindo; senão minhas experiências permaneceriam no estado de preconceitos subjetivos inviáveis. Desde esse momento pus-me a serviço da alma. Eu a amei e odiei, mas ela sempre foi minha maior riqueza. Devotar-me a ela foi a única possibilidade de suportar minha existência, vivendo-a como uma relativa totalidade.”
(JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões. 35.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021)
Em sua obra é possível perceber o impacto dessa entidade maior, o inconsciente. Mas acredito que seja possível principalmente para aquelas pessoas, que assim como eu, tiveram suas experiências interiores para as quais as descobertas de Jung oferecem a explicação mais esclarecedora até o momento.
É preciso ter coragem de perguntar a si mesmo se por acaso o seu inconsciente não pode colaborar quando não há à disposição nenhuma resposta consciente que o satisfaça.
Qualquer que seja a constituição do inconsciente, é um fenômeno natural que gera símbolos que mostram ter um sentido.
O inconsciente continua sendo uma terra desconhecida e mesmo assim nos envia toda noite seus sinais, por meio dos sonhos.
Tente seguir os sinais dos seus sonhos, dê atenção ao lado desprezado de sua própria psique inconsciente em busca de sinais que possam indicar o caminho, o caminho da iluminação nas profundezas da sua própria alma.
Lembrando que tudo que é bom é custoso, requer tempo, requer paciência, e não há um fim para isso.
FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025.
JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões. 35.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.
JUNG, C.G. Sobre Sonhos e Transformações. 1.ed. Petropólis - Editora Vozes, 2014.
PINHEIRO, Heráclito. Psicologia junguiana: uma introdução. 1.ed. Fortaleza - Dummar, 2019.